Viagem a verdade

Capítulo I
 
VIAGEM A VERDADE
 
      Por várias vezes que comecei a escrever, sempre tinha um porque, um pra quem. Sempre procurava minha inspiração fora, garotas, filmes, desejos, ambições. Meu personagem sempre serviu pra agradar as pessoas e não a mim mesmo. Gostava da idéia de me colocar diferente, de ter um personagem que fosse a ambição de uma alma. Mas com o tempo comecei a ver que essa idéia era fraca.
  
    Precisava nasc er, precisava entender a simples verdade “seja você mesmo”. Dentro de cada alma, existe uma inspiração. Qual é minha inspiração? Em que se baseia sua essência? Eu queria saber, mas tive medo. O problema dessa viagem ao centro da própria alma: a viagem é sozinha, é sem mapa, é sem volta.
 
     Sabe aquela coisa de contar que Papai Noel não existe, uma vez que encontra averdade, nunca vai vê-lo com os mesmos olhos. É só mais um fracassado de barba que sai do shopping pra beber e brigar pelas ruas chutando lata. Prefiro lembrar do bom velhinho no pólo norte, pensando nas crianças…
 
     Mas chega uma hora, que viver assim… é ingenuidade demais. Antes de um parto sempre existe dor, é o que leva ao momento glorioso… à luz… à vida… ao começo. Quero começar de novo, aguardo minha hora chegar. Igual ao bebê no ventre, pressionado, empurrado, a vida espera por mim… em um lugar que exista mais luz que aqui.
 
     Acho que a verdadeira resposta é a paixão. Não a paixão romântica, mas a paixão pela vida, pela estátua de que construímos de nós mesmos, a fidelidade às virtudes, a conquista da própria verdade. Se trair a você mesmo, e vender o que acredita, sempre será uma pessoa sem fé, nunca acreditara em ninguém, nem em você mesmo. A idéia mais triste que existe é perder fé em sua própria companhia.
 
     Vejo pessoas venderem a palavra “amor”, acho que o “MC’Donalds” começou com isso, com seu slogan “Amo muito tudo isso”…  e é apenas pão, carne, salada e algumas batatas fritas. Não deveriam usar o “amor” como algo tão comercial. As pessoas se acostumam com isso e perdem a força da palavra e tudo o que vem junto com ela.
 
     Vejo as pessoas venderem, venderem quem são, venderem os outros, venderem sua verdade. Eu estou pronto pra nascer… As contrações, as perturbações, o incomodo, tem que existir mais espaço… Eu estou pronto. Espero que o mundo esteja também.
 
    Quero encontrar minha verdade, minha essência e esse é o diário da minha odisséia:
 
NASCIMENTO
 
     Estou na sala sozinho, tenho um copo de um whisky barato, algumas lembranças, e são onze e meia. Tenho Led Zeppelin ao fundo e a música me diz algo… me diz o que não quero ouvir.
 
     Fechei os olhos… São onze e vinte nove.
 
    “Eu vi uma criança chorando, eu vi um garoto correndo, eu vi um fracasso acontecer, eu vi o poder completo, eu vi o amor, eu vi a vida, eu vi o luxo, eu vi toda a luz, eu vi um abraço, eu vi as lágrimas… eu vi… eu precisava ver, eu estava lá…”
 
     Abri os olhos… São onze e vinte oito… São onze e vinte sete… Eu estava nascendo..
 
     O tempo já não é importante, existem coisas mais intensas e mais incontroláveis que ele, ou talvez não. Minha percepção mudou…  São onze e trinta e um, abri os olhos, se passaram três anos, sou jovem. Essa foi minha viagem, e paguei a passagem deixando parte da minha máscara. Vou contar tudo o que vi, que senti, que precisava ver… esse será meu legado.
 
 
Capítulo II

JARDIM DE INFÂNCIA

Acordei deitado na rodovia, ventava muito, ventava frio, ventava… eu estava sozinho. Não era dia, não era noite, era simplesmente diferente… o dia com preguiça de nascer, a noite com medo de acontecer, era frio, era gelado, era nublado.

Ao meu lado via árvores, não existia folhas, apenas os galhos secos, cada uma tinha um rosto esculpido, rosto de pessoas que eu deixei, rostos que ficaram pra trás… pessoas que passaram por mim… pessoas que já não são minhas.

Eu estava andando, meus sapatos estavam molhados, começou a garoar… a cidade gemia, de longe eu ouvi a sua voz que era baixa, cativante, tinha a voz de garota, ela pedia por mim: – Você tem a cura eu tenho a sua! Nos salvemos… nos salvemos…

Meu braço sangrava… minha essência derramada pingo a pingo…. Não sei onde me cortei, sei que estava doendo, sei que estava gelado, sei que estava queimando… eu estava sangrando.

Meu relógio parou… eu estava preso… dentro daquele devaneio.

Eu vi as luzes da cidade, a placa me mostrava… dois quilômetros. Eu fui andando, bebi da fonte de água envenenada, eu tive alucinações… A cidade me chamava… como se fosse minha amante, como se fosse minha garota, “venha pra mim, serei sua”. Eu não entendia nada.

Não existia ninguém, só essa voz possuída de vontade de me ter. Ela me seduzia, gostei da idéia.

Conforme andava, cada vez mais me assustava com o vento que varria a estrada, a areia que formava, e todo aquele quadro apocalíptico. Depois da poeira, um garoto veio ate mim, de shorts, de camisa colorida, um boné maior que ele… ele tinha dez anos, ele era eu… era meu passado.

Ele disse: “Eu te conheço…”

Simplesmente eu o abracei… abracei a mim mesmo. Abracei o garoto que eu perdi. Abracei quem era minha promessa, eu já tinha verdade demais. Mas num disse quem eu era, tive medo que ele se decepcionasse.

Chegamos na cidade, parecíamos duas sombras, ninguém nos via, ninguém se via. E a cidade me chamava: “venha pra mim… sou sua cura”. Eu vi os garotos brincando, vi as meninas pulando corda, eu olhei pra ele e disse:

– Por que não está lá?

– Por que você esta aqui, você é a nossa resposta. Você é o prometido, você voltaria, você esta aqui… Siga a voz que te chama, cure o nosso motivo, cure nossa verdade… estenda sua mão…

Ele saiu correndo… ou melhor, eu sai correndo. Nessa idade eu corria muito. Seria inútil correr atrás. As pessoas apenas passavam, desviavam seu rosto… como se estivesse esmolando a compaixão delas. Eu não conseguia ver o rosto de ninguém.

Eu era estranho, estrangeiro do meu sonho…, precisava ser um cidadão do meu devaneio. Senti a voz dela, eu senti de novo… ela sussurava aos meus ouvidos…

– Me salve…

– Eu era a cura… eu estava sangrando.

2 pensamentos sobre “Viagem a verdade

  1. Pingback: Viagem a verdade « A Ponte – Entre Idéias e Sonhos

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